Jetstortopia

‘Santos é o Havaí brasileiro!’

Posted on: 10/01/2011


[clique aqui para a segunda parte deste tópico]

*****

Vou aproveitar e expandir aqui um comentário que fiz há pouco tempo no Facebook, durante uma recente viagem a Santos. Mas primeiro a anedota:

“Estamos no longínquo ano de 1981, em Sorocaba. Cinco calouros devidamente carecas, já grandes amigos há poucos dias pelo fato de dividirmos a mesma república e o mesmo infortúnio: a inexorabilidade de levarmos o primeiro trote, no primeiro dia de aula. Subindo de forma vacilante o leve e longo aclive que levava às escadarias da faculdade, eis que surge um bando de veteranos que nos aborda perguntando qual de nós tinha os dedos das mãos mais compridos: era necessário alguém ‘anatomicamente capacitado’ para auxiliar numa ‘cirurgia de emergência’. De fato, chegou a passar brevemente pela nossa ainda ingênua mente que isso pudesse ser verdade, mas as dúvidas logo se dissiparam quando escolheram o mais gordinho e de mãos mais curtas daqueles entre nós: a estória da tal cirurgia era obviamente mentira, e estávamos realmente diante do nosso primeiro de muitos trotes. Nosso sangue gelou: no caso de nós quatro restantes um tanto por alívio ao termos escapado até então, o outro tanto por apreensão do que iria acontecer imediatamente com nosso amigo e, muito provavelmente, em seguida conosco também. Os veteranos então disseram:

– Sobe na árvore, calouro!

– Subir?

– Sobe nessa árvore, calouro, já!

– Mas eu tenho que ir para a aula!

– SOBE NESSA ÁRVORE CALOURO, SOBE AGORA, SOBE, JÁ!!!

Era impossível resistir a toda aquela gritaria e pressão: em segundos,  mesmo acima do peso, ele já estava encarapitado no primeiro galho que dava conta de suportá-lo que conseguiu alcançar.

– Agora grite a plenos pulmões: ‘Santos é o Havaí brasileiro’!

Santos é o Havaí brasileiro

– Grita alto e com vontade!

– Santos é o Havaí brasileiro!!!

– Mais alto e com mais vontade, calouro!

SANTOS É O HAVAÍ BRASILEIRO!!!

– Isso, calouro! Muito bem!

– Posso descer agora?

– Claro que NÃO! Vai gritar isso cem vezes, e a gente quer te ouvir muito bem lá da sala!

– Mas eu vou perder a aula inaugural!

– Não importa calouro, GRITA AÍ! E vocês, o que é que estão olhando? VÃO TODOS ANDANDO OU VÃO TER QUE SUBIR TAMBÉM!

E nós, com um alívio envergonhado e as pernas tremendo feito gelatina, lenta e penosamente fomos subindo a ladeira enquanto olhávamos para trás e ouvíamos nosso amigo se esgoelar continuamente, já meio rouco:  ‘Santos é o Havaí brasileiro!’.”

E afinal, qual a moral dessa história? Bem, de fato não há nenhuma. Mas ocorre que essa frase nunca me saiu da cabeça. Nasci em São Paulo, mas sempre me considerei santista de coração, pois boa parte da minha infância, e de minhas boas memórias da época, é de lá. O que mais me intrigava era que o veterano responsável pelo trote era santista. Tudo bem, Santos pode não ser nenhum Havaí de fato, mas como não apreciá-la em seu charme peculiar, misto das glórias da era cafeeira (como bem lembrou meu amigo Sylvio) com o modernismo cinquentista?

Só solucionei essa charada recentemente, ao viajar para lá e reencontrar, após muitos anos, quase tudo tão encantador como antes, talvez não tudo igual, mas até mesmo melhorado: a deliciosa e enorme beira-mar ajardinada, os prédios leve e loucamente inclinados da orla, os bairros aconchegantes com seus típicos predinhos de três andares, os churros recheados e as pizzas com ervilhas.

Santos é de fato o Havaí brasileiro, o Havaí não passa de um estado de espírito…

Edifício na Ponta da Praia no estilo Artacho Jurado: pilotis, rampas, elementos vazados e as cores características, do mesmo jeito encontrado em Higienópolis/SP, por exemplo.


Ponta da Praia.


Ponta da Praia, olhando p/ S. Vicente.


Antigo conjunto que abrigava os cines Iporanga e a livraria do mesmo nome, agora um pequeno e belo shopping.


Colégio São José, Av. Ana Costa, um dos quais meu avô lecionou durante anos, e onde minha mãe e tia estudaram.


Ana Costa esquina com Glicério, antiga parada de bonde no estilo modernista anos 50.


Antiga estação da estrada de ferro Sorocabana, agora um museu.


Em frente á antiga estação da Sorocabana ainda existe a barbearia onde meus avós me levavam p/ cortar o cabelo qdo guri, na década de 60 e início dos 70.


Esquina da Ana Costa com Paraguai, parada do Cometão no Gonzaga perto da casa dos avós, antes de existir a atual rodoviária, na década de 60.


Fachada do antigo Cine Praia Palace na Ana Costa com Paraguai, Gonzaga, cujos fundos davam para o quintal da primeira casa que meus avós moraram que tenho na memória.


Rua Bahia, travessa da Paraguai, Gonzaga, terreno onde antes havia um casarão e uma casa térrea à E onde tenho as primeiras lembranças da infância; ao fundo a parede de projeção do antigo cinema.


Rua Paraguai, Gonzaga. a casa do meio é a segunda que me recordo que meus avós moraram no início dos 70, que tinha não só quintal nos fundos como um pomar mais ao fim do terreno, como era hábito antigamente.


Rua Manoel Vitorino, travessa da Paraguai, Gonzaga, último endereço onde moraram antes de se mudarem para Sâo Paulo na década de 80, e de onde guardo mais recordações.


A fachada foi reformada e levantaram esses portões que não existiam, mas de resto a entrada lateral e o jeitão do predinho é o mesmo.


As duas janelas de baixo eram do apartamento deles. Aí deixava guardado minha antiga e saudosa coleção de gibis, mais de 3 mil exemplares que hoje valeriam uma pequena fortuna, e que ao me desfazer nos 80 me permitiu chegar apenas até Tiahuanaco, na Bolívia…. se arrependimento matasse…


Santos sempre teve muitos gatos, que me lembre… este numa janela na Rua Dr Luis de Faria, travessa da Ana Costa, Gonzaga.


Uma cópia pobre porém honesta do estilo de Artacho Jurado: pilotis, vão livre, elementos vazados e as cores sempre onipresentes, R. Dr Luis de Faria, Gonzaga.


Luis de Faria esquina c/ Ana Costa: daqui eu ‘saia p/ o mundo’ na minha cabeça de guri… o que significava um passeio atrás de cinema, gibis e praia…


Mesma esquina, outro lado: o espaço vazio é do antigo cine e hotel Indaiá, já demolidos.


Acho que é o último cinema de rua que resta dos dez que haviam na Ana Costa até os anos 80: fachada do cine Roxy, Gonzaga.


Vista do shopping Iporanga a partir do outro lado da rua. Lembro claramente de ter visto nesse antigo cinema ‘Mogli’ da Disney, ‘Jasão e os Argonautas’ com os efeitos especiais do fantástico Ray Harryhausen, e ‘Heavy Metal’, versão animada inspirada na revista em quadrinhos do mesmo nome.


Praça Independência, Ana Costa, Gonzaga, famosa pelas comemorações dos títulos do ‘glorioso alvinegro praiano’…

Fachada do antigo cine Independência, Ana Costa, Gonzaga.


Fachada do antigo cine Atlântico, Ana Costa, Gonzaga.


Falando do glorioso alvinegro praiano…


Indo em direção á praia, à E a fachada rosa e antiga do Hotel Avenida Palace.


Já no calçadão que beira a praia, em frente à Ana Costa.


Olhando em direção à S. Vicente…


…e em direção á Ponta da Praia; lá no meio ‘atrapalhando’ a foto está o Daniel, grande amigo de viagens turísticas e/ou filosóficas.


Os bondes mais famosos eram os abertos, aqui um fechado servindo de atração turística.


Motorista de bonde era ‘motorneiro’, se não me engano…


Santos era repleta de bondes, creio que até a década de 80… eram tão característicos de lá que a cidade atualmente adota um bonde como seu logo.


Em frente á Ana Costa. olhando a praia…


… e olhando para o Gonzaga.

Shopping Parque Balneário, o mais antigo de lá, entrando novamente pela Ana Costa.


Interior da Saraiva do Gonzaga, antiga Livraria Atlântica, que nos bons tempos rivalizava ou mesmo superava a La Selva de Congonhas…


E também resiste a Livraria Martins Fontes, a melhor referência literária que encontrei por lá.


O giro pelo Gonzaga acaba de novo na Pça Independência, do outro lado da calçada agora.


Em frente ao Aquário, na Pta da Praia, apreciando a chegada do ‘toró’ pelos lados de S. Vicente.


Fachada do arquetípico Aquário municipal.


Um pacu, peixe amazônico… pelo menos acho que é… (segundo meu amigo Salama, peixeiro emérito e amazonense por afinidade, não é não…)


Voltando para o planalto: túnel que leva ao centro velho, e daí á Anchieta/Imigrantes… amo tanto essa cidade que acho que um dia ainda volto pra lá de vez

12 Respostas to "‘Santos é o Havaí brasileiro!’"

caro Jorginho, muito legal este conto/artigo/ post, sei lá….me remeteu a Santos dos anos 60 aonde passei várais temporadas de ferias, no Embaré: carnaval saudável de rua, marmitas de aluminio com um feijão com peixe frito, trocar na banca dois gibis recem lidos por um, os banhos de mar, a maresia que abria todos os apetites…
não tenho idéia se Santos é ou não o Havai brasileiro, mas se for o Havaí é legal, bem legal…abraços saudosos

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É exatamente isso, Hélio… fora que as ondas de lá são mais do que apropriadas p/ minha capacidade surfística, hehe… []s!

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Jorge, um post pra lá de bacana… me levou a uma viagem à minha infância e adolescência. Embora eu não tenha nenhuma ligação mais familiar, digamos assim, era onde passávamos nossas férias, com a galera. Santos, pra mim, tinha um quê de estar muito longe de Sampa… Era outro astral, outro sotaque, um glamour que você bem registrou em prédios e detalhes. Estive lá outras vezes, e sempre me volta essa boa e saudosa sensação dos anos 60-70, que ficaram pra sempre na minha memória. Abraços

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Pois é Virginia, é muitas vezes um sentimento oposto ao daqui da capital, onde o urbanismo acelerado e sujeito praticamente só às forças do mercado faz c/ que em poucos anos bairros inteiros se tornem quase irreconhecíveis p/ aqueles que lá vivem ou viveram… []s!

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Tirando dúvida e botando lenha…

O Pacú é um peixe da bacia do pantanal, é parente proximo do Tambaqui que tem uma coloraçao mais “dourada” na parte do ventre e uma carne um pouco mais consistente, embora tambem bastante gosrdurosa (e por isso mesmo saborosa).

O Pacú amazonico é um peixe bem menor, de cerca de 1 palmo e bem fininho. daqueles de comer fritinho com cerveja. (lembra os galhudos das valas de areia na beira da praia).

Caso voce queira uma aula prática de ictiologia gastrolomico-etilicamente applicada, a AZUL, GOL, TAM e TRIP fazem voos regulares (a Varig anda meio irregular… rsrsrsrs) De Sao Paulo ou Campinas para Manaus, com ou sem escalas e conexoes. Avise com meia hora de antecedencia para que dê tempo da TUA cerveja gelar, porque as que tem aqui sao todas MINHAS!

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Valeu Salama! E concordo que já passou de hora de fazer de novo esse curso aí, hehehe… []s!

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Olá Jorge… adorei a companhia para o Havaí brasileiro!!! Uma amiga da faculdade que viveu em Santos por muito tempo ficou emocionada com as fotos… acho que estamos glamouuurizando Santos, hein?!!! Valeu mesmo pela referência de amigos de filosofia… é com muito apreço que me entretenho e me empenho em nossos debates… (pronto pra outra e estamos ai pra isso!!! Valeu!!)

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Daniel: já, já a prefeitura irá nos agradecer pelos préstimos! E como ficamos devendo aquela partida de crapot seremos obrigados a outra viagem só por isso, hehehe… []s!

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Olá,Dr Jorge: Não imagino um paulista que
não tenha na memória as viagens de férias a Santos.
Estive lá no Ano Novo,assisti à queima de fogos na orla,
foi sensacional.Ao fazer o passeio de bonde pelo centro histórico,
infelizmente ainda bastante deteriorado,soube de um Projeto de
Revitalização.Graças aos incentivos fiscais,algumas lojas famosas,cafés,padaria,etc estão se mudando para lá.Daqui há
alguns anos creio que será um charme frequentarmos aquele local.abraços Izabel

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Olá Izabel! Seria ótimo ter o centro revitalizado, tomara que o projeto dê frutos. É bem possível, já que a ampliação e modernização do porto e o aumento da exploração da bacia num futuro próximo devem trazer mais renda ao município, e portanto mais chances do projeto vingar. []s!

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Adorei o post Jorge! Aposto que o gordinho era o Sibinelli, acertei?
Beijos
Anna

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em cheio, hehehe… bjs!

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