Jetstortopia

Top 5 – Rock & revelação

Posted on: 04/05/2011


Após ouvir da minha filha que o rock andava em baixa ultimamente, comecei a pensar no assunto e passei a me lembrar de como comecei a curtir esse tipo de som. Então este Top 5 será um pouco diferente pois tive um contato tardio e sui generis com o gênero, daí o título meio estranho que, espero, ficará claro mais adiante.

Quando era adolescente na década de 70 ouvia, claro, aquele pop característico da época, representado por artistas como Elton John, Carpenters, Barry Manilow e o nosso Morris Albert, e cujas músicas embalavam bailinhos de garagem e trilhas sonoras de novelas. Isso numa época em que havia muito menos emissoras FM e a uma boa parte delas era assolada por muzak, mais adequada para salas de espera de consultórios médicos, odontológicos e elevadores (apesar desse estilo frequentar regularmente os toca-discos dos pais e avós da minha geração, e expoentes do gênero tais como Ray Conniff, Paul Muriat e cia possuírem inúmeros apreciadores até hoje). Não fiquei completamente imune á tendência, mas pelo menos aproveitei a deixa para pender para o lado jazzístico do estilo Big Band da qual a muzak era não mais que um pastiche, e pude ouvir muito Glenn Miller, Tommy Dorsey, Benny Goodman e Harry James com imenso prazer.

Como pode ser lido num post anterior, lá pelo meio da década fui abalroado violentamente pela Disco Music e gastei um bocado das minhas mesadas em LPs do Earth, Wind & Fire, Donna Summer e KC & The Sunshine Band, e o que não podia comprar gravei em inúmeras e indefectíveis fitas cassete direto do rádio, algumas das quais devo ainda ter no fundo de algum baú.

Ocorre que em meio a tudo isso eu me considerava um verdadeiro e legítimo MPBista de carteirinha: se me perguntassem nessa época que tipo de música eu mais apreciava, da minha boca sairiam nomes dos mais emblemáticos da MPB tais como Chico Buarque, Baden Powell, Milton Nascimento ou MPB4, salpicado aqui e ali da bossa-nova de João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.  Nada de guitarra, nem mesmo com Caetano, Gil ou mesmo Tim Maia, os quais passei a ouvir somente quase uma década depois. Não era uma coisa muito consciente, mas reconheço hoje que fora tomado por uma espécie de ‘espírito da época’ tupiniquim, o qual não arredava pé e nem deixava espaço para incorporar musicalmente quase mais nada.

Lá pelos idos de 1979 ganhei de aniversário meu primeiro LP de rock, estilo progressivo: Fragile do Yes, dado de presente por um grande amigo de infância na melhor das intenções de me abrir devidamente a cabeça e (e)levar meus gosto musical a novos e vibrantes horizontes, tudo absolutamente em vão. Tentei ouvir umas duas ou três vezes, mas não conseguia sequer terminar uma música. Barulho, ruído e irritação: aquele som não me dizia absolutamente nada…


Passei mais uns bons anos completamente surdo para qualquer proposta musical no estilo, como se todo rock fosse feito por alienígenas cuja linguagem eu não conseguia decifrar nem o elemento mais básico, até que a conversão se deu de forma totalmente inesperada para mim. Numa viagem com os amigos da faculdade pelo Nordeste, já no início dos anos 80 e devidamente amaciado pelo advento do rock nacional (que bem merece seu Top 5 no futuro), me encontrava relaxado, feliz e com um bocado de cerveja na cabeça quando, do alto do potente e bom som do quiosque à beira-mar, um poderoso riff de guitarra me tomou conta como uma verdadeira revelação: aquele rock era o melhor som que já tinha ouvido até então  e tinha que descobrir de quem era aquela música! Bem debaixo da caixa de som, bombando no volume máximo, gritei para o barman se ele conhecia aquele som e ele, já bastante manguaçado também, gritou de volta que sim:

– É DRK STRT..! DRK STRT..!

. O QUÊ??

DERK STRIT!!

– Escreve aí pra mim, por favor!

E no guardanapo em garranchos maiúsculos lia-se: DERK STRIT. De volta a São Paulo fui assim que pude num sebo especializado em rock que existia na finada Galeria Paulistano, esquina da Brigadeiro com Paulista, e com toda a coragem e honestidade que pude reunir falei para o dono:

Sei que é uma vergonha mas não manjo nada de rock e quero que você recomende alguma coisa. Quero levar uns 2 ou 3 LPs para iniciar uma discoteca básica, a começar por esse tal de  DERK STRIT, conhece?? – e mostrei o guardanapo amassado para ele, falando da guitarra fenomenal que tinha ouvido:

– Nunca ouvi falar… mas escuta isto aqui, não será o que você procura, não?

E mais uma vez aquele mesmo som sólido e vertiginoso saiu das caixas e invadiu meus sentidos, e de lá eu saí com um LP do The Who, um do Deep Purple e, óbvia e finalmente, com o famoso primeiro LP do DIRE STRAITS

Então este não é o Top 5 dos maiores ou melhores rocks de todos os tempos, mas apenas aqueles que primeiro a mim se revelaram e que desde então nunca me faltaram:

Sultans of Swing – Dire Straits

A música que tocou aquele dia na praia e que foi a responsável pela minha mudança de Gestalt não é propriamente nenhum clássico do rock e nem pertence a uma banda tão importante ou icônica como tantas outras, mas não há como negar que aquele solo de guitarra é um dos mais reconhecíveis e contagiantes do gênero.

Carpet of the Sun – Renaissance

Mais ou menos na mesma época, numa outra viagem dessa vez com amigos do colégio, alguém colocou o som do LP Ashes Are Burning para tocar e, dentre todas as incríveis músicas, esta foi paixão à primeira ouvida: um som único, progressivo e sinfônico, emoldurado pela voz maravilhosa da vocalista Annie Haslam. Décadas depois tive o prazer de vê-la ao vivo no Bourbon Street em São Paulo, infelizmente sem a banda original mas com sua voz mágica e poderosa ainda intacta e brilhante.

Can’t Find My Way Home – Eric Clapton

Para recuperar o tempo perdido e ao mesmo tempo economizar comprei na época um LP duplo estilo coletânea caça-níqueis surpreendentemente recheado de ótimo material do god of guitar britânico, e ao lado das belas e clássicas Layla, Cocaine e Let it Grow havia uma versão ao vivo desta música (originalmente da fase pós-Cream, já na banda Blind Faith), linda e pungente ao estilo blues-rock , uma das minhas favoritas desde então.

Hocus Pocus – Focus

Fui apresentado a essa banda holandesa por um grande amigo de faculdade, e o arranjo dessa música é absolutamente genial e irreverente, produto exclusivo de sua época: pausas abruptas, vocálises malucas e solos de flautas cortados por um refrão de guitarra dos mais marcantes de todos os tempos.

Heart Of The Sunrise – Yes

Finalmente pude então voltar a ouvir o fantástico som do grupo e apreciá-lo em sua totalidade na sua fase mais emblemática e progressiva, com peças que resvalam para o violão clássico ao lado de experimentos geniais com gêneros e andamentos como nesta música: para mim, o ruidoso som do rock fez-se, finalmente, sentido (*)…

Estas são, então, as cinco músicas que me revelaram o verdadeiro sentido do rock. Quais são as suas?


(*)  Uma pequena e incidental homenagem ao fabuloso livro (e curso) de José Miguel Wisnik ‘O Som e o Sentido’ (Companhia das Letras, 1989) que fez pela minha cultura musical o mesmo que a guitarra de Mark Knopfler para os meus sentidos…

5 Respostas to "Top 5 – Rock & revelação"

A lista é fantastica. Tudo rock da melhor qualidade.
2 observaçoes:
1-A capa do Focus é a “capa 2” a original tem fundo escuro, uma moldurinha amarela em cima e em baixo e no canto inferior esquerdo o mago da flauta/teclados iluminado por um tenue facho de luz na diagonal. Cortante e sutil como o som que sai do vinil!

2-Tambem tive a honra e o prazer de ver a FADA Annie Haslam ao vivo, acompanhada no palco somente pelo Stevie Howe, um dos guitarristas da melhor fase do… YES!

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Alô Salama, como vai! É verdade, parece que o Focus teve 2 formações no início, e lançou material anteriormente c/ uma capa e depois essa versão do LP que é chamado às vezes de Focus II. Grande abraço!

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[…] Na minha adolescência vivi dividido entre a MPB e a Disco Music, conforme comentei num post anterior. No último gênero meus artistas preferidos eram sem sombra de dúvida o Earth, Wind & Fire e […]

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faltou uma pitada de PINK FLOYD – 1972 / The Dark Side of the Moon – este disco sim tokou e ainda toka muito na cabeça de um bom rockeiro…. sem falar que ficou mais de 500 semanas nas paradas de sucesso eu recomendo !!!

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Vc tem toda razão, e muito mais coisa boa ficou de fora de fato (Beatles, Stones, CCR, etc, etc) mas listas são mesmo limitadas e arbitrárias e esta que fiz ficou restrita à minha historia inicial no gênero. Mas diga aí quais seus 5 maiores álbuns de Rock classico (ou ainda de todos os tempos) e quem sabe montamos um novo post a partir daí :) Abs!

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