Jetstortopia

Tintim e o encanto europeu

Posted on: 21/01/2012


A primeira vez que li Tintim foi nos anos 70, lembro-me claramente qual foi o álbum: Tintim no Tibete obtido numa troca de gibis na escola, mas disso já não tenho tanta certeza, pois pode muito bem ter sido num sebo… só sei que era um exemplar usado com a lombada ligeiramente rasgada que eu tenho até hoje, e foi paixão instantânea. Nunca havia lido ou visto nada igual, e traduzindo de forma analítica aquele efeito, diria que se deve a uma especial combinação de um traço claro e limpo sem sombras ou hachuras, a serviço tanto de quadros pequenos e ricamente detalhados quanto á espaços vívidos e amplos, além de uma colorização leve e brilhante que parecia saída de um livro infantil. Tudo isso em contraste com estórias densas e dramáticas com muitos toques de humor, ora pendendo para o suspense policial ora para a ação pura e simples, costuradas por uma narrativa cadenciada e permeadas pela realidade geopolítica da época como nenhum outro quadrinho fora capaz de fazer até então. Em suma: uma verdadeira obra prima da Nona Arte.

Imagem característica das contracapas dos álbuns de Tintim: no lugar da lista das publicações, montagem com página extraída de “Tintim no Tibete”.

Através de Tintim, ainda que pautado por um eurocentrismo ora mais ora menos exacerbado, viajávamos pelo mundo numa vibrante aula atrás de outra sobre geografia, história e antropologia, disfarçadas de aventura. Tibetanos e chineses, americanos do Norte e do Sul e europeus orientais e ocidentais eram retratados nos mínimos detalhes em seus traços étnicos, roupas, costumes e utensílios, bem como carros, aviões e máquinas diversas em sua graça tecnológica agora retrô. E principalmente o que mais chamava atenção: o encanto detalhista das diferentes arquiteturas e as deslumbrantes paisagens naturais em todo o globo. Foi nas aventuras desse topetudo personagem que pela primeira vez entrei em contato com a trágica relação entre o ópio e a China no século XIX e início do século XX, a tensão de ambos os lados da Cortina de Ferro na Europa pós 2ª Grande Guerra, a dignidade ancestral da cultura budista tibetana e o caudilhismo tragicômico característico da América Latina por tantas décadas.

Detalhes das páginas 01 e 02 de “As 7 Bolas de Cristal”.

Detalhe de “Tintim e os Pícaros”, página 20: onde está Haddock? 

Tintim foi acompanhado na época no Brasil por uma muito apreciada explosão de publicações de quadrinhos europeus, dentre os quais se destacam os franceses Asterix e Michel Vaillant, o italiano Corto Maltese e o espanhol Mortadelo e Salaminho, sem contar as obras adultas de Manara e Crepax. Ainda que a carreira do criador de Tintim tenha sido maculada por acusações de colaboracionismo com os alemães durante a 2ª Grande Guerra (a revista em que publicava teria sido beneficiada, não tendo sido fechada durante a ocupação nazista) e mesmo posteriormente por acusações de racismo devido ao tratamento dado aos personagens negros africanos no álbum Tintim no Congo (inocentado recentemente por um tribunal belga), o belga Hergé (pseudônimo de Georges Prosper Remi, 1907-1983) continuou produzindo regularmente seus primorosos álbuns gigantes até 1976 (30×22,5cm adequados para apreciar as regulamentares 62 páginas de estória, sendo que as publicações mais antigas eram em capa dura cartonada e a imagem frontal era sempre uma verdadeira pintura), inicialmente publicados por aqui pela antiga Editora Flamboyant, substituída depois pela Record. Tintim é publicado hoje em dia aqui no país pela Companhia das Letras, estando todos os álbuns em catálogo (exceto por Tintim no País dos Sovietes, porém incluso o último e inacabado Tintim e a Alfa Arte, de 1983).

Capas de todos os álbuns de Tintim, montagem do blog Os Batutinhas.

Tintim já fora submetido algumas vezes a adaptações para cinema e TV, tanto com atores como com animação, a mais bem sucedida delas sendo o desenho animado  franco-canadense de excelente qualidade que foi ao ar na década de 90 pela TV Cultura (foi noticiado que a TV Cultura voltará a exibir os episódios em abril/2012), tendo sido lançado em DVD anos atrás e cuja reprise está se dando atualmente no Canal Futura Quanto ao mais recente filme, creio que Steven Spielberg e Peter Jackson mostraram-se à altura do desafio, tanto na escolha do formato CG com captura de movimentos quanto na escolha das estórias para executar a transição para a telona. O filme se baseia na mescla dos álbuns O Caranguejo das Tenazes de Ouro e O Segredo do Licorne, e logo numa das primeiras cenas vê-se num mural na casa de Tintim referências a Os Charutos do Faraó, A Ilha Negra, O Ídolo Roubado e O Cetro de Ottokar, algumas de suas melhores aventuras solo anteriores (o que leva a crer que já são parte do passado do personagem cinematográfico e nunca virão a serem filmados). O acerto se dá porque O Caranguejo… introduz um personagem que se tornará, ao lado do sempre presente e leal cãozinho Milu, o companheiro fundamental das aventuras seguintes, adicionando largas doses de humor, camaradagem e altos teores alcoólicos às estórias: o Capitão Haddock. Com a participação dos atrapalhados e divertidos investigadores gêmeos Dupond e Dupont, o filme exagera nos contrastes entre luz e escuridão bem como no ritmo quase epiléptico da ação (características spielberguianas que não pertencem aos quadrinhos), mas ao final acerta na mistura para entreter uma plateia moderna de crianças e adultos igualmente impregnados de hiperatividade. Aparentemente os EUA ainda não sabem apreciar Tintim devidamente  dada a rarefeita bilheteria por lá, mas acredito que os brasileiros e o mundo não deixarão passar essa ótima oportunidade de diversão com o maior personagem daquele que é considerado legitimamente o Walt Disney europeu.

Leia aqui uma boa crítica e mais informações sobre o filme, e para saber mais sobre o personagem vale uma olhada neste blog brasileiro exclusivamente dedicado à ele.

Mais sobre Tintim: Tintim | 85 ANOS no Omelete

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