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Os Vingadores – uma crítica ideológica

Posted on: 02/05/2012


Ontem um amigo e eu assistimos a Os Vingadores no cinema. Sendo ambos nerds de fina estampa e sólida formação (para se ter uma idéia com base na dica dele eu havia antes baixado, assistido e adorado a versão xvidCAM do filme, obviamente podre de qualidade e neste caso particular com legendas em grego, literalmente), suponho que nosso veredito tenha um peso equivalente aos dos nosso pares, e ambos concordamos: espetacular e praticamente perfeito para o gênero. Tive a sensação de ver o universo Marvel perfeitamente transposto para a telona, como se eu fosse um Phil Sheldon em Marvels. Roteiro bem amarrado, personagens carismáticos, largas doses de ação, fantasia, sci-fi e humor, não dá para pedir mais nada… exceto a continuação.

Ocorre que na saída meu amigo fez um comentário interessante e levemente perturbador: olhando para as fotos dos personagens no balde de pipoca exposto na entrada do cinema, ele refletiu que os personagens Marvel seriam muito mais tipicamente associados à ideologia republicana nos EUA, a começar pelo Capitão América e toda sua iconografia estampada no uniforme, do que os da DC. Tendo sido quase sempre ao longo da vida muito mais um Marvete  do que DCnauta e sempre mais simpático ideologicamente aos democratas do que aos republicanos, o comentário me deixou intrigado e me fez revolver o fundo da memória em torno de uma resposta afirmativa ou negativa em relação a isso.

De uma forma geral o filme dos Vingadores, brilhante do ponto de vista do entretenimento do gênero ação com superheróis, é uma estória da origem bastante fiel em espírito ao material produzido pela genial dupla criativa Stan Lee & Jack Kirky nos longínquos anos 60, exceto pela presença da S.H.I.E.L.D e pelo acrescido no final (*). Estão lá praticamente todos os membros fundadores com exceção do Homem-Formiga e da Vespa, substituídos aqui com vantagens pela Viúva Negra e Gavião Arqueiro, sendo ambos surgidos nas páginas do Homem de Ferro (no clássico Tales of Suspense #57 – set/1964, por Stan Lee & Don Heck), tendo especialmente o Gavião total identidade com a equipe (presente desde Avengers #16 – maio/1965 por Stan Lee & Jack Kirby, na primeira das inúmeras reformulações de sua composição). Estão preservadas as características peculiares de um grupo heterogêneo, cujos integrantes possuem motivações e objetivos muitas vezes conflitantes, o que os leva a confrontos interpessoais antes que possam se unir em torno de um objetivos comum. E está lá também o mesmo primeiro vilão Loki, o irmão adotivo de Thor já presente no filme do ano passado: inteligente, manipulador e poderoso o suficiente para que o esforço combinado dos maiores heróis do planeta seja necessário para derrotá-lo.

Capa de Avengers #001,  setembro de 1963.

Na transposição para o cinema do século XXI essa narrativa pode ser lida como uma metáfora da atual situação geopolítica e econômica do EUA, e como tal dialoga com o atual momento histórico. Após o sonho do Fim da História nos anos 90, os EUA se depararam com o pesadelo do terrorismo em seu próprio solo com o brutal ataque em 11/09/2001 (ao qual as cenas do ataque alienígena à Nova York imediatamente remetem)  e a subsequente perda de grande parte de seu capital político ao travar, baseado em premissas falsas e terceiras intenções, uma guerra espúria no Iraque. Depararam-se também com o desgaste de uma guerra simultânea no Afeganistão, da qual saem apenas parcialmente vitoriosos pela captura e morte de seu principal inimigo, e finalmente com a maior crise econômica desde os anos 20 do século passado, cuja origem se deve ao desmonte das salvaguardas da economia real pelas forças da especulação financeira globalizada e desenfreada, dividindo a nação entre os 99% gerais e os 1% mais ricos e polarizando o debate entre uma direita ultra conservadora, uma (relativa) esquerda centrista fortemente cooptada pelo mercado e uma esquerda descentralizada buscando organizar-se em movimentos como o Occupy Wall Street.

Os personagens do filme podem ser lidos, então, como representantes dessas forças muitas vezes antagônicas e conflitantes que devem de alguma maneira tentar se entender e organizar-se coletivamente para fazer frente tanto às ameaças externas, representados por “alienígenas” comandados  por um inimigo possuidor de uma visão delirante simplificada e totalitária (capaz mesmo de cooptação, ainda que à revelia, de seus próprios membros, caso do Gavião Arqueiro e do personagem do cientista Dr. Erik Selvig), bem como às ameaças internas oriundas de forças políticas ocultas representadas pelos “Conselheiros“, desumanizados e sombrios na adoção de soluções militaristas às custas de um holocausto da própria população.

Nesse cenário, o Capitão América (Chris Evans) de fato parece representar o cidadão médio, alguém do povo (soldado) alçado à condição superheróica pelo complexo científico militar para fins propagandísticos, que se supera através dos ideais que sente exercer para si e para o mundo. Conservador, religioso (numa cena emblemática a Viúva Negra o aconselha a não se meter numa briga entre os deuses Thor e Loki, ao que o Capitão, contrariando sua orientação, responde: “Madame, só conheço um Deus, e ele não se parece com nenhum dos dois“) e determinado, o Capitão parece carregar em si os atributos e contradições da psique popular coletiva afeita aos valores básicos e essenciais, obrigado a lidar com as complexidades do mundo moderno violento, tecnológico e globalizado com o melhor de sua fé e coragem, porém sem muita certeza de seu papel na contemporaneidade.

Capitão América e Falcão em ação em conflitos raciais nas ruas do Harlem, NY (arte de John Romita)

Vale relembrar que o Capitão América ressuscitado do gelo quase 20 anos após o fim da 2a Grande Guerra é bem distinto do sujeito folk e provinciano que surge da descrição do parágrafo anterior (vide o Capitão reflexivo e atormentado apresentado por Stan Lee & Jim Steranko em Captain America #s 110-111, 113 – fev-mai/1969). Suas estórias ao longo dos anos 60 e 70 são um excelente reflexo dos conflitos e mudanças sociais e políticas pelo qual o país passa no período mostrando sua parceria com um dos primeiros superheróis negros dos quadrinhos: o Falcão (surgido em Captain America #117 – set/1969 por Stan Lee & Gene Colan), que passa mesmo a dividir o título da revista (a partir de Captain America & The Falcon #134 – fev/1971, por Stan Lee & Gene Colan, e por mais 105 números), envolvendo-se ambos em defesa da diversidade e liberdade durante os conflitos raciais narrados em estórias dessa fase (como por exemplo em Captain America #s 143-144 –  jun- dez/1971, por Stan Lee, Gary Friederich & John Romita), bem como seu envolvimento na descoberta do envolvimento do (fictício) Presidente da República norteamericano em uma trama de crimes e manipulação política (Captain America #s 169-176 –  jan-ago/1974, por Steve Englehart & Sal Buscema), reflexo do caso Watergate (1972-1974) protagonizado (de fato) na época por um presidente republicano.

Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr) na condição de gênio científico tecnológico, bilionário self-made independente e iconoclasta pode bem ser interpretado como representante da força e liderança ainda incontestáveis dos EUA no campo científico e tecnológico, resultado da concentração da maior qualidade de educação e pesquisa de nível superior do planeta aliada à uma cultura de financiamento de risco á inovação científica e tecnológica, representada pelo Vale do Silício. O Homem de Ferro sendo o herói tecnológico per se,  Tony Stark  representa então o geek bem sucedido, cujo passado militarista herdado do pai e presente pacifista e “verde” simboliza bem o fato do uso tecnológico nunca ser neutro: na sua vertente mais nobre estaria a serviço da liberdade e igualitarismo, como a internet e a cultura hacker nos seus primórdios.

Tony Stark reflete sobre seu papel e o de seu país no Vietnã (arte de George Tuska & Mike Esposito)

Neste caso também temos um personagem que surgiu inicialmente extremamente ideologizado, representante do país no conflito da Guerra Fria (nas várias batalhas contra os inimigos comunistas Dínamo Vermelho e Homem de Titânio, o auge das quais representada em Tales of Suspense #69-71set-nov/1965, por Stan Lee & Don Heck) e devendo mesmo sua origem à Guerra travada no Vietnã (Tales of Suspense #39 – mar/1963, por Stan Lee, Larry Lieber & Don Heck), passando a questionar sua participação e suas opções políticas a partir de querelas com congressistas alinhados ao complexo industrial-militar (iniciando-se prematuramente em Tales of Suspense #68 – ago/1965, por Stan Lee & Don Heck) tradicionalmente mais alinhados ao lado republicano do espectro político norteamericano (conflito parcialmente explorado no filme Iron Man 2 de 2010), e estendendo-se ao longo do fim da década de 60/início dos anos 70 (vide em especial Iron Man #68 – jun/1974, por Mike Friedrich & George Tuska; e Iron Man #78 – set/1975, por Bill Mantlo & George Tuska), quando então torna-se pacifista.

Thor (Chris Hemsworth) é uma figura mitológica divina nórdica e o fato de deuses e semi-deuses relacionarem-se com a humanidade é fartamente descrito na literatura antiga, a começar pela grega. O personagem simboliza tanto as forças magníficas e incontroláveis da Natureza (no caso representado pelos raios e pela alcunha de Thunder God ou Deus do Trovão, muito utilizada nos quadrinhos) como o poderoso fascínio inconsciente que exercem as estruturas arcaicas (deuses, hierarquias monárquicas, paraísos platônicos como Asgard em contraste com a corrupção e impermanência da Terra ou Midgard, a meio caminho dos infernos ctônicos) que descrevem nossa condição humana ora patética, ora trágica e serve como pano de fundo e justificativa para a narrativa das ameaças cataclísmicas cósmicas bem como as provenientes do inconsciente coletivo representadas pelo delírio de dominação de Loki (Tom Hiddleston): holocausto nuclear, choque de civilizações, aquecimento global, etc. (simbolicamente bem representados no arco apocalíptico do Ragnarok em Thor #s 348-353 – out/1984-mar/1985, por Walter Simonson). Thor não possui um viés político explícito, mas seu universo representa uma sociedade mítica arcaica que pode obviamente ser associada ao espectro mais á direita como encontrado entre entre monarquistas, nacionalistas e mesmo fundamentalistas, ainda que o personagem sempre tome o partido da humanidade e sua libertação frente a essa forças.

Um dos clássicos confrontos entre heróis, transposto com sucesso para o filme (arte de Sal Buscema & Frank Bolle)

Por fim em oposição resta o Hulk (Mark Ruffalo), o lado monstruoso e selvagem, ainda que puro e essencial, do outsider Bruce Banner que é fragilmente contido pela fina camada civilizatória de que somos compostos, ora ameaçando a destruição total em troca do fim do conflito por seu apaziguamento interno, ora neste caso do filme servindo como potência afirmativa instintiva da força brutal da vida na manutenção da espécie humana. Trata-se talvez do personagem mais trágico do universo Marvel (tragédia essa característica comum nas criações de Stan Lee, ao lado da ação intensa, boas doses de humor e o uso recorrente da quebra narrativa da 4a parede) pois na sua forma humana é um gênio cientifico (e humanitário no caso do filme) que ao arrogar-se um projeto que pode ser entendido de certa forma como eugênico (desejava replicar a experiência do supersoldado que originou o Capitão América) acaba por criar uma monstruosidade que na sua pureza sentimental quase infantil se mostra mais humano do que a prepotência do complexo militar-científica que o originou e que o persegue. O Hulk representa muito bem essa força trágica do sujeito comum e valoroso porém não poderoso politicamente, sempre perseguido e manipulado para instrumentalização dessa mesma força para o trabalho alheio à sua revelia (Hulk #s 107-108 – set-out/1968, por Stan Lee & Herb Trimpe), ou visto como então como ameaça passível de eliminação quando se afirma independente e contrário a esse interesses (como em uma das inúmeras tentativas de separação de Banner do Hulk, em Hulk #s 315-324- jan-out/1986, por John Byrne & Al Milgrom), e sua condição anti-establishment pode muito bem ser associada ao espectro bem mais à esquerda como entre os anarquistas, mais propriamente.

A Viúva Negra e o Gavião Arqueiro são um caso antigo (arte de Sam Kweskin & Sid Shores)

Restam os superheróis sem superpoderes a serviço do Governo: a Viúva Negra (Scarlett Johansson) como uma superespiã, representante dos conflitos Leste/Oeste remanescentes da Guerra Fria e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), um agente habilidoso e preciso no uso do arco e flecha, ambos de passado “sujo” e representantantes da zona cinzenta e ambígua que as organizações paramilitares de investigação e espionagem, simbolizadas pela S.H.I.E.L.D. e seu diretor Nick Fury (Samuel L. Jackson), significam para a proteção dos norteamericanos internamente e no mundo. O Agente Coulson (Clark Gregg), excelente personagem criado exclusivamente para o cinema, funciona não só como um elo de continuidade narrativa ao longo de todos os filmes (desde Iron Man de 2008), bem como ao revelar sua admiração pelo Capitão América e solicitar seu autógrafo na sua coleção de cards do herói faz a ponte metalinguistica perfeita com a audiência primordial dessas estórias, sendo um verdadeiro nerd dentro na narrativa: aquele que acredita e ultimamente motiva e anima esses universos, representando tanto seus criadores como consumidores (como atestam inúmeros leitores que viraram artistas como Roy Thomas, Jim Shooter, Dave Cockrum e o próprio Joss Whedon, diretor do filme, além de inúmeros brasileiros como Mike Deodato, Ivan Reis, Ed Benes e Joe Prado, dentre muitos outros que criaram especificamente para o gênero superheróis).

Uma das inúmeras formações recentes dos Vingadores, no belíssimo traço de Mike Deodato

Portanto em face dessa laudatória porém modesta análise e ainda que a premissa seja lícita e pertinente, acho um pouco complicado alinhar de forma direta e simplista o universo Marvel apenas a uma facção da política norteamericana dada a complexidade das representações possíveis desses personagens. Sem contar o importante fato de que aquele meu amigo, esse mesmo que levantou a hipótese que motivou este post, é um convicto e assumido DCnauta de carteirinha…:)

(*) SPOILER – realce com o mouse a frase a seguir se quiser ler: é revelado no final que trata-se de Thanos o personagem por trás das forças alienígenas,  inimigo protagonista de uma enorme Saga cósmica de mesmo nome que se espalha por títulos como Iron Man, Captain Marvel, Avengers e Warlock ao longo da década de 70.

Atualização 07/05/12 – depois da estréia norteamericana no último fim de semana com mais de U$200 milhões de bilheteria o filme supera o recordista anterior, Harry Potter e as Relíquias da Morte parte 2 (~U$169 milhões) e as previsões mais otimistas, superando U$700 milhões globalmente até agora. Vamos ver em julho a resposta do Morcego…

4 Respostas to "Os Vingadores – uma crítica ideológica"

Gostei do post, Dr.
Creio que, de certo modo, os superheróis ou super heros são bastante conflitantes. Creio que não só o Hulk, mas todos têm essa marca individual – como todos nós -, que os tornam socialmente distantes, estranhos, malucos, como na vida real – ah! se as paredes falassem!
Por isso que acho chatas essas leituras que os tratam como apenas representantes de uma ideologia, a serviço de um capitalismo, o qual nem sabemos onde se centraliza, né!
Gosto do aspecto inconsciente, que nos aproxima de uma visão da realidade imersa num mar de histórias, cheias de narrativas – fantásticas por não serem comuns ou aceitas.
Gosto de como funcionam em nosso imaginário, expressando nossos desejos e anseios.

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Concordo plenamente, Sylvio – os superheróis apresentam aspectos míticos, profundos e multifacetados para além das análise mais superficiais. Vem daí provavelmente sua longevidade e nosso fascínio por eles… abs!!

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Sobre o Hulk, gosto desta ideia de força selvagem e incontrolável, sobretudo: “servindo como potência afirmativa instintiva da força brutal da vida na manutenção da espécie humana. Trata-se talvez do personagem mais trágico do universo Marvel” – bem nietzscheano.
A força do Hulk me parece uma explosão material de algo que esteja na essência da vida, ou da potência de vida, algo como uma base cósmica, base de toda matéria.
Gostei

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A mescla de aspectos de O Médico e o Monstro com Frankenstein em um contexto modernizado militarista/sci-fi foi mais uma sacada de gênio do Stan Lee…

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